A Necessidade de Velocidade

Capa do box do jogo para 3DO

Por Tiago Viegas

Sim! O jogo precursor da série que hoje ganhou até filme merece muito respeito e é por isso que dedicamos esse artigo a ele, o primeiro Need For Speed. O game que, para quem teve o prazer de jogá-lo na época, trouxe novos parâmetros sobre jogos de carros. Mas para entender a importância desse título que completou 20 anos em 31 de agosto de 2014, é preciso contextualizar o game a sua época e também entender esse cenário.
Em 1994 o mundo dos games estava em transição tecnológica, com uma nova evolução dos consoles de 16 bits – como Super Nintendo e Mega Drive ou Gênesis – para os de 32 bits. A era da troca dos cartuchos pelas mídias digitais cujas referências tornaram-se o Sega Saturn e o Sony PlayStation. No meio do caminho, algumas “plataformas laboratório” apareceram, como o Sega CD e o 32X. Uma delas foi o 3DO. Este vídeo game foi elaborado por um grupo de sete empresas de tecnologia que criaram a “receita” para que outras empresas licenciadas fabricassem o vídeo game. E foi numa empreitada da revista norte-americana Road & Track com a Eletronic Arts (retomando a ideia do game do SNES e Mega Drive, The Duel) que deu vida ao Road & Track presents: Need For Speed ou simplesmente Need For Speed.
A bordo do Mazda RX-7 no segundo segmento
do percurso dos alpes

E o jogo deu tão certo que seguiu o caminho inverso, dos consoles para os computadores. Lançado em 1994, teve versão para PC em 1995 e só no ano seguinte teve uma edição especial para PlayStation. A tal novidade da Eletronic Arts em forma de corrida usava os recursos de áudio e vídeo do 3DO de forma inteligente. Enquanto o Sega CD havia tentado impor a nova realidade multimídia aos gamers, muitas vezes deixando que os vídeos dos jogos suplantassem o próprio game, os produtores do Need For Speed utilizaram esses recursos como plataforma editorial de revista. Uma clara influência da Road & Track.

Foi assim que a frota de 8 carros que compunham o jogo ganhou brilho especial. Toyota Supra Turbo, Mazda RX-7, Honda (Acura) NSX, Porsche Carrera 911, Dodge Viper RT/10, Chevrolet Corvette ZR-1, Lamborghini Diablo VT e Ferrari 512 TR ganharam tratamento especial no menu de escolha dos carros. Cada um com sua página personalizada com informações detalhadas e análise narrada, além de uma breve galeria de imagens e um vídeo clipe. Entre as sessões de jogos, o apresentador do game e possível oponente aparecia em vídeos bem bolados e irreverentes, de acordo com o desempenho do jogador, para interagir com o desafiante.

E essa mãozinha da revista foi além da questão jornalística. A atuação do periódico na análise de comportamento dos carros foi fundamental para a imersão do jogador no game durante a ação, devido ao realismo da reação dos carros ao controle do piloto em algumas situações. Contudo, a forma de guiar não foi explorada ao extremo e assim, a jogabilidade do game é parte simulação e parte arcade, um equilíbrio perfeito para agradar gregos e troianos. Com isso, coube à Pioneer Productions e à Eletrônic Arts fazerem a outra metade do trabalho e dar os recursos de desafio e ambientação do game.
Muito diferente da maioria dos games atuais, inclusive da própria série Need For Speed, o primogênito era o mais purista possível, o com duas possibilidades de jogo: time trial (contra o relógio) ou duel (duelo). Nada de tunar os carros, botão de turbo, nitro ou sistema “catch up” (quem estiver atrás, por mais lerdo que estiver, ganhar ajuda de desempenho do computador para chegar no carro da frente, muito comum em arcades), nada disso. Era apenas você, a pista e o relógio ou o oponente. Era basicamente uma questão de braço. Pelo menos na maioria das vezes… Pois as pistas eram estradas com o tráfego comum de carros e utilitários. Assim, volta e meia as corridas eram fruto de pancas memoráveis! 
Camera do cockpit do Lamborghini Diablo VT
durante o primeiro segmento da cidade
A beleza dos cenários era indiscutível! Além da ação que começava na cidade (City), passava pela costa (Coast) e chegava às montanhas (Alpine) o jogador apreciava uma bela paisagem. As estradas eram divididas em três partes ou segmentos e a medida que passavam tornavam-se mais difíceis. Então a escolha do carro merecia toda atenção. 
E é claro que um mundo de corridas ilegais não ficaria sem a presença da polícia. Mesmo equipado com um sinalizador, o jogador precisava manter atenção redobrada no horizonte para não bater e ser pego pelo agente no rebote. Era multa certa. Então, nessa situação, sempre que fosse fazer uma ultrapassagem, ainda mais quando tinha a viatura na sua cola, estava na contramão e a curva era em subida e com final cego, era preciso habilidade de piloto! Essa fórmula bem sucedida foi repetida com menos primor nos jogos seguintes da série, Need For Speed 2 e Need For Speed 3 – Hot Pursuit, porém com perda gradual e significativa de muitos aspectos que faziam o game original ser reconhecido como uma joia rara.
Polícia na caça pelo Dodge Viper RT/10
no primeiro segmento do percurso da costa
Definitivamente, houve muita evolução, principalmente gráfica, da série e do gênero, mas essa composição purista perdeu força em favor da conquista de novos públicos e horizontes. Algumas tentativas frustradas de envolver o jogador numa esfera social na era dos jogos online, como os últimos games da série Test Drive, não renderam e foram descontinuadas.
O primeiro Need for Seed foi o que poderia se chamar hoje de refúgio para os amantes do automobilismo virtual, que buscam realismo na pilotagem de carros de corrida nos campeonatos que disputam, mas querem um descanso sem perder a essência entusiasta dos carros. O game também poderia ter sido uma plataforma de evolução para aqueles jogadores acostumados com os arcades que desfrutar experiências mais realistas antes de entrar de cabeça no AV. 
Toyota Supra Turbo rasgando no percurso da costa
É uma brecha com quetanto Forza Motorsports e GranTurismo têm namorado, mas enquanto o primeiro tem certo realismo e dinamismo, o segundo tem beleza e entusiasmo de sobra, mas ambos falham em criar a conjuntura de tudo em um game apenas. Seria um estouro que deixaria o NFS no chinelo. É por todo legado deixado aos jogos seguintes, da franquia é de outras criações, que o primeiro NFS foi primoroso no seu pacote a sua época no surgimento de concorrentes como o Gran Turismo. Naquela época, Need For Speed era como um todo, o que todo game de carros sonhava ser. Um jogo que tinha alma aventureira, destinado aos entusiastas, inconsequentes e desejosos pelo desbravamento de novos caminhos em situações nunca antes exploradas.

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